sexta-feira, agosto 18, 2006

Memórias Esquecidas I

[...]
Quando Mike Elegante se vai embora, o Embraiagem olha para mim.
-Porque me defendeste?
Encolho os ombros.
- Porque tu próprio não o fizeste.
[...]
Antes que eu consiga responder, o Embraiagem aparece à porta da nossa cela. Tem na mão um frasco de champô e treme dos pés à cabeça.
-O que se passa? - pergunto.
Ele parece que vai vomitar.
- Não consigo - diz subitamente, e de repente vejo o Mike Elefante atrás dele.
Mike tira o frasco das mãos do Embraiagem e aperta, salpicando-me todo de fezes humanas.
- Queres tanto ser negro que é melhor esfregares isto na pele.
Estão no meu cabelo, na minha boca, nos meus olhos. Sufoco, tentando respirar em volta do cheiro horrível, limpando-me e depois estendendo as mãos, cobertas de merda. Conciso salta para cima de Mike Elefante enquanto os guardas prisionais se apressam a entrar na cela. Tiram Conciso de cima do Mike e atiram-no para cima da imundíce que está no chão.
- Isso foi estúpido, Conciso - grita o guarda.- Mais uma e és reclassificado para a restrição disciplinar.
Uma outra guarda prisional agarra-me no braço e leva-me para fora da cela.
- Precisa de ser descontaminado - diz ela. - Vou trazer-lhe roupas.
Volto-me e vejo, por cima do ombro, o primeiro guarda pôr o joelho nas costas do Conciso para o algemar.
Eles acham que foi o Conciso que me fez isto, apercebo-me - um negro a tentar fazer o seu companheiro de cela de tal forma infeliz que peça para ser transferido. Eles presumem que Mike Elefante da mesma raça que eu, estivesse ali para me ajudar.
- Esperem - digo eu, quando o guarda me leva. - Foi o Mike que fez isto! (...) Perguntem ao Embraiagem.
[...]
Fecho os olhos e tento ouvir os sons da prisão. Demoro algum tempo para perceber o que falta: pela primeira vez desde que está aqui, o Embraiagem não está a chorar antes de adormecer.
(...)
Transportam o corpo do Embraiagem numa maca passando pela nossa cela.
-Qual é o nome del? - pergunto aos técnicos de emergência médica, mas eles não respondem. - Qual era o seu verdadeiro nome?-grito.-Ninguém sabe o seu verdadeiro nome?
- Yo - diz Conciso. - Calma, mano.
Mas eu não quero acalmar-me. Não suporto pensar que, em circunstancias diferentes, poderia ter sido eu. Será que o Destino é recebermos o que merecemos ou merecermos o que recebemos?
Conciso olha para mim intensamente.
- Ele está melhor assimm acredita.
- A culpa é minha - volto-me para el, de lágrimas nos olhos. - Disse aos guardas prisionais para falarem com ele.
-Se não fosses tu teria sido outra pessoa. Noutra altura.
Abano a cabeça.
-Que idade tinha ele? dezassete, dezoito?
-Não sei.
- Porquê? Porque é que ninquém lhe perguntou de onde era, ou o que queria ser quando crescesse, ou...
-Porque todos sabemos como acaba a história. Com uma meia enfiada na garganta, ou uma bala nas tripas, ou uma faca nas costas - Conciso fica a olhar para mim. - Algumas histórias são aquelas que ninguém quer ouvir.
Sento-me no beliche, porque sei que é verdade.
- Queres saber o que aconteceu ao Embraiagem? - diz Conciso num tom amargo. - Era uma vez um bebé que nasceu em Nova Iorque. Ele não conhecia o pai, que estava trancado na cadeia. A mãe era uma pega drogada que se mudou com ele e as duas irmãs para Phoenix quando ele tinha doze anos, e que dois meses depois morreu de overdose. As irmãs foram viver para casa dos pais dos namorados, e ele foi para as ruas. Os Crips de South Park tornaram-se a sua familia. Alimentaram-no, vestiram-no, e um dia quando ele tinha dezasseis anos deixaram-nos participar na acção, quando convenceram uma rapariga a divertir-se um bocado, e todos a violaram à vez. Mais tarde descobriu-se que ela tinha treze anos e era atrasada.
- Foi assim que o Embraiagem veio aqui parar?
- Não. - responde Conciso. - Foi assim que eu vim aqui parar. A história do Embraiagem é a mesma coisa, os nomes é que são diferentes. Todos aqui têm uma história dessas.
[...]

[in Memórias Esquecidas, Jodi Picoult]

*KISS*

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